
Leme Sem Fé: A Esquina e o Vento
Ela chega rindo como quem sabe o mundo,
cabelos soltos, sol em cada passo.
Brilha nas esquinas do seu próprio mundo,
faz da rua inteira o seu espaço.
Os olhos dizem picos de inteligência,
outras vezes um gesto sem direção.
Há um encanto raro na sua licença:
o estranho que mora na sua canção.
Não troca o baixo onde aprendeu a ser,
as calçadas conhecem seu andar.
Ofereceram-lhe portas a florescer,
ela preferiu a sombra do seu lugar.
Ama o riso fácil, os amores passageiros,
beijos que passam como vento no vão.
Guarda nos bolsos risos inteiros,
e no peito, um mapa sem estação.
Tem orgulho das vozes que a chamaram,
do barulho que fez ao se fazer notar.
Mas carrega também as noites que ficaram
sem promessa de voltar ou ficar.
Sabe que a vida podia ser outra estrada,
um vestido novo, aeroporto, direção.
Escolhe, porém, a esquina descalçada,
onde aprendeu a língua do coração.
Os afetos que planta são flores de instante,
chegam cedo, murcham com a manhã.
Ela sorri — aceita o amor variante —
como quem sabe que tudo é passagem sã.
Há um mistério rindo em seu jeito aberto,
um traço de vento que não explica por quê.
Quem a conhece pouco chama-a de perto,
quem fica entende: ela é leme sem fé.
Quando chove, recolhe-se na janela,
olha os pingos contando histórias vãs.
No espelho vê outra — mais singela —
um desejo calmo de raízes e mãos.
Às vezes pergunta ao céu por que insiste
em lhe dar tanto brilho sem pedir razão.
Responde o próprio corpo que insiste:
isso aqui é meu, é chão, é chão.
E se o mundo ofereceu destinos vastos,
ela fez da permanência seu altar.
Prefere abraços curtos e contrastes,
ainda que o futuro não queira ficar.
No fim, há beleza em sua teimosia:
guardar a janela onde nasceu a canção.
Vive em festa, em silêncio, em poesia —
menina que escolheu o próprio chão.
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